terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Em Chamas


Título original: Catching Fire
Autora: Suzanne Collins
Nº de páginas: 280
Editora: Editorial Presença
Colecção: Via Láctea

Sinopse
«Pela primeira vez, em Panem, dois adversários conseguem o que até aí era considerado impossível: sobrevivem juntos aos terríveis Jogos da Fome. Mas o estratagema de Katniss Everdeen e Petta Mellark, para não terem de escolher entre matar ou morrer, semeia o fogo da revolta entre os oprimidos. Snow, o cruel presidente de Panem, apercebe-se do perigo que aquele feito encerra e engendra um plano para acabar de vez com a rapariga que simboliza a rebelião. O Capitólio fará o que for preciso para acabar com qualquer intenção de derrubar o seu poder...»

Opinião
Depois da terrível prova de sangue a que foram submetidos, Katniss e Petta pensam estar finalmente em segurança no familiar Distrito 12 a que podem chamar de lar. Ainda assim, algo inesperado e um quanto alarmante coloca Katniss numa posição vulnerável. A sua mente torna-se uma espiral incontrolável de dúvidas, preocupações e receios. Afinal, tanto ela como os que a rodeiam poderão estar sob a mira das garras do Capitólio, que a todo o custo pretende atingir o seu claro objectivo: submeter eternamente a raça humana ao seu poder. Nesta inquietação constrói-se o início de Em Chamas, o segundo volume desta trilogia que continua com uma narrativa sólida, abastada de fortes emoções e surpresas extraordinárias.

Começando por referir o enredo, é de destacar que este se encontra muito bem concebido. Nota-se que foi planeado ao mais ínfimo detalhe de modo a não haver pontos por resolver e no fim tudo encaixar devidamente. Coerente com a história que nos foi apresentada em Os Jogos da Fome, neste volume a ideia de Panem e dos seus múltiplos distritos é alargada e o próprio leitor experiência as vivências de cada um deles, cruzando-se com as diversas personalidades e mentalidades únicas à sua maneira. As realidades são bastante diferentes umas das outras, porém não há como negar que existe um pensamento generalizado a todos os habitantes de todos os distritos. Mais que uma ideia, um ímpeto de agir, de finalmente fazer ouvir as suas vozes emudecidas pelo poder do Capitólio, tão cansadas e sofridas pela impotência que há anos as mantém na penumbra. Esta força expande-se ao longo do livro, pouco a pouco, mesmo que tal não pareça. É no fim que se revela a dimensão desta força e o leitor fica completamente arrebatado, como se tivesse sido iludido até ao momento em que se esclarece a verdadeira natureza dos acontecimentos, sensação esta que é naturalmente comum à narradora da história, Katniss Everdeen. Assim, sentimos que a autora elaborou um jogo também para nós e não só para as suas personagens, conduzindo-nos no encalço que pretende ao mesmo tempo que traça pistas que esconde delicadamente, sem darmos por isso. Mas elas estão lá. Basta segui-las com uma perspicácia atenta.

No que toca às personagens, há adições interessantes. É-nos apresentado, de forma breve, o novo produtor de Jogos, Plutarch Heavensbee. Apesar do que tudo indica, Plutarch é algo mais do que a faceta que mostra perante o Capitólio, desempenhando um papel fundamental para o funcionamento da obra. De seguida conhecemos o charmoso e forte Finnick Odair, a implacável e perversa Johanna Mason e ainda o brilhante Beetee, três figuras chave que conferem simultaneamente momentos de tensão e descontracção. É, no entanto, em Katniss que se sente o maior impacto. Se antes já era uma adolescente bastante madura para a sua idade, aqui Katniss cresce ainda mais, evidenciando ser uma pessoa preenchida de coragem, disposta a qualquer sacrifício para sobrepor as necessidades de quem ama acima das suas. Nessa sua obstinação revela-se uma Katniss revoltada, mas acima de tudo sedenta de vingar quem lhe é próximo e que, de alguma forma, foi magoado. É este o seu mote, e nele estão presentes os seus instintos que acabam por enganá-la, bem como enganam quem lê. Da mesma índole lutadora, mas muito mais sentimentalista, é o único e amável Petta. Também ele sofre com a situação que se engrenou como uma bolha consistente à sua volta, mais que Katniss, estando consciente de que não existirá o futuro que tanto desejou. Já não existem dúvidas quanto a Peeta, que é agora alguém completamente credível com intenções definidas, mesmo por entre todo o aparato que a sua inteligência é capaz de criar para ludibriar a multidão que assiste às suas acções. Finalmente, a relação entre Katniss e Peeta parece tomar um rumo concreto. Apesar dos entraves iniciais, a proximidade entre os dois é inevitável, deixando se ser apenas um artifício satisfatório para passar a ser algo substancial, verdadeiro e irrefutável. Ainda assim, é pouco o tempo para o saborear. Por fim, é agradável ter mais uma vez a presença de Haymitch como uma voz da razão fortemente demarcada quando sóbria. Revela-se algo mais da sua história, um facto importante que o assemelha inevitavelmente a Katniss. Mais do que nunca, Haymitch torna-se fulcral na sobrevivência dos seus tributos, reservando para si uma missão muito especial.

Da imaginação de Suzanne Collins saem coisas maravilhosas, como já foi possível testemunhar no primeiro livro. O engenho construído em Em Chamas eclipsa o que até aqui nos foi presenteado, provando que a autora não só é excelente a criar cenários de caos embelezados com pormenores fascinantes como também a estabelecer uma narrativa que não se priva de surpresas incandescentes.

Com efeito, é óbvio que esta é uma leitura frenética, devastadoramente aliciante em toda a sua extensão. Não existem momentos insípidos. Em cada capítulo há algo de novo a revelar, seja novos acontecimentos ou reviravoltas nas personagens. Notoriamente, a última metade das páginas é um prazeroso elixir de adrenalina imparável, culminando em algo totalmente imprevisível que, contudo, tem em si matéria mais que suficiente para desenvolver uma sequela.

Em Chamas foi, convictamente, uma experiência avassaladora. Apelando à vertente emocional das suas personagens e, ao mesmo tempo, embutindo nelas a crueldade humana na sua forma mais sádica, Collins evolui de um tema interessante para uma história ímpar, com o poder de causar a reflexão sobre a vida e a morte e tudo aquilo que acontece entre ambas - o que não é mais que um percurso, ainda assim um percurso extremamente valioso. A vontade de lutar por aqueles que se ama é aquilo que toma maior grandeza, juntamente com o propósito de fazer sobressair os valores em que se acredita. Estas são duas forças enormes com um poder colossal para permitir a mudança há tanto aguardada. A faísca ateou o início da revolução. E bastou. Pois o fogo não tardará em despoletar.

2 comentários:

Mónica Silva disse...

Nem sei o que gostei mais, se o livro, se a tua opinião ;)
Agora a sério, excelente caracterização do livro, não poderia concordar mais com o teu texto! Foi sem dúvida uma leitura inesquecível!

Vc disse...

Olá Mónica :)

Muito obrigado pelo teu comentário! Livros destes merecem boas opiniões. Eu gostei bastante do primeiro mas este deixou-me completamente rendido! Estou numa ânsia enorme para saber o que o terceiro volume trará, mas de certeza que será algo fantástico.

Obrigado por passares por cá!
Boas leituras ;)

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