segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Não Digas Nada


Título original: The Good Girl
Autora: Mary Kubica
Nº de páginas: 336
Editora: Topseller

Sinopse
«Um thriller psicológico intenso e de leitura compulsiva, Não Digas Nada revela como, mesmo numa família perfeita, nada é o que parece.
Tenho andado a segui-la nos últimos dias. Sei onde faz as compras de supermercado, a que lavandaria vai, onde trabalha. Nunca falei com ela. Não lhe reconheceria o tom de voz. Não sei a cor dos olhos dela ou como eles ficam quando está assustada. Mas vou saber.
Filha de um juiz de sucesso e de uma figura do jet set reprimida, Mia Dennett sempre lutou contra a vida privilegiada dos pais, e tem um trabalho simples como professora de artes visuais numa escola secundária.
Certa noite, Mia decide, inadvertidamente, sair com um estranho que acabou de conhecer num bar. À primeira vista, Colin Thatcher parece ser um homem modesto e inofensivo. Mas acompanhá-lo acabará por se tornar o pior erro da vida de Mia.»

Opinião
Um desaparecimento, na maioria dos casos, é a premissa para um caos desenfreado de sentimentos, pensamentos e até acções. A ignorância do paradeiro daquela pessoa torna-se angustiante à medida que os dias passam, sendo que a esperança nunca morre, mas apesar disso desvanece-se. Não obstante, quando o problema fica solucionado, tudo volta ao normal. Gradualmente, mas volta. Em Não Digas Nada, o desaparecimento de Mia é apenas o início dos problemas. Fica definido à partida que a família Dennett não é uma família normal. Aparentemente com tudo de bom a que têm direito, os Dennett têm falta do mais importante pilar que constitui uma família - as relações interpessoais. Esta ideia é o motor do livro e um quadro a que muitas vezes se recorre sob diversas perspectivas. 

E é precisamente na forma de perspectivas que se compõe este livro, uma ideia que, dentro do género policial, faz todo o sentido. Intercalado entre Eve, Gabe e Colin, o foco narrativo muda constantemente para dar a conhecer as várias perspectivas dentro do caso. Esta estratégia é inteligente e funciona na perfeição, ao desvendar aos poucos informações cruciais que vão compondo o puzzle mistério. Além disso, consegue criar-se uma empatia com cada uma das personagens, sendo por vezes difícil decidir uma posição de favoritismo, o que é inevitável numa situação em que há inequivocamente um lado bom e um lado mau. Cada personagem preenche-se, pois, de uma singularidade que justifica as acções que levam a cabo.

A história desenrola-se à volta de Mia, no entanto só a conhecemos a partir das figuras que a rodeiam. Os olhares esculpem uma jovem independente, criativa, com a força necessária para fazer mudar o pequeno mundo dos outros. Mia divide-se em dois momentos cruciais, tal como esta obra se divide num antes e depois, num passado e num futuro. A interpretação que se faz de Mia deve ter em conta o ponto de vista psicológico associado ao acontecimento que a transformou, nem sempre sendo óbvio o porquê do seu comportamento. Na verdade, só é possível perceber o impacto desta personagem no momento final em que se cessam as dúvidas - é Mia quem mais surpreende, pois nela está a chave do mistério. Colin é o homem que Mia conhece e que muda o seu destino, alguém que tem mais do que à partida se vê. Eve é a mãe de Mia, um alma sofrida na sua perda e que atravessa uma fase de introspecção, algo importante para as decisões que acaba por tomar. Gabe é um intermediário que averigua a linha que separa a dúvida da verdade, e uma ajuda tremenda principalmente para Eve. Como figuras principais, torna-se interessante ver como as suas vivências se cruzam e dão lugar a uma dependência mútua, da qual surge uma necessidade de constante presença e comunicação.

Como romance policial, este livro está bem construído e serve o seu propósito. Não existe uma trama demasiado complexa nem uma história absolutamente brilhante, mas a simplicidade com que se tecem os acontecimentos e se revela o interior das personagens intervenientes é suficiente para manter a curiosidade à tona e querer devorar as páginas de modo a conhecer o que, efectivamente, aconteceu. Aqui está um dos pontos fortes: os saltos temporais entre o passado e o presente permitem que se conheça o desfecho da obra, mas sem saber como aí se chegou, que é indubitavelmente o mais importante.

Quanto à narrativa, a autora conseguiu manter o suspense com um ritmo constante e apelativo, em parte devido à linguagem simples que não implica muita reflexão, antes conduz o leitor rapidamente entre os pequenos capítulos. Esta, outra estratégia que permite tornar a leitura ainda mais célere. De notar que, por vezes, os capítulos são pequenos demais para existir conteúdo significativo, pelo que surge a ânsia de continuar até que algo aconteça.

Assim, em Não Digas Nada alia-se uma história interessante, em que o mistério prende a atenção do leitor, com uma narrativa simples e singular que se traduz num infalível entretenimento literário. Mary Kubica tem uma estreia bastante positiva que, espero, seja apenas um primeiro passo dentro deste género que soube tão bem explorar.

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