quarta-feira, 25 de setembro de 2013

As Brumas de Avalon - A Senhora da Magia


Título original: The Mists of Avalon - Mistress of Magic
Autora: Marion Zimmer Bradley
Nº de páginas: 304
Editora: Saída de Emergência
Colecção: Bang!

Sinopse
«O clássico As Brumas de Avalon regressa ao mercado português para dar a conhecer a uma nova geração esta história mágica e intemporal centrada nas mulheres que, por detrás do trono de Camelot, foram as verdadeiras detentoras do poder.
Morgaine é ainda uma criança quando testemunha a ascensão de Uther Pendragon ao trono de Camelot. Uther deseja Igraine, a mãe de Morgaine, presa a um casamento infeliz com Gorlois. Mas há forças maiores que estão em curso e que se preparam para mudar as suas vidas para sempre. Através da sua sacerdotisa Viviane, Avalon conspira para unir Uther a Igraine e dessa aliança nascerá Arthur, a criança que salvará as Ilhas. Morgaine, dotada com a Visão, é levada por Viviane para Avalon onde irá receber treino como sacerdotisa da Deusa Mãe. É então que assiste ao despertar das tensões entre o velho mundo pagão e a nova religião cristã. O que Morgaine desconhece é que o destino irá armar-lhe uma cilada e pô-la, de novo, no caminho do meio-irmão Arthur da forma que menos espera…»

Opinião
Marion Zimmer Bradley faz renascer a lenda de Arthur sob um forma muito peculiar. Com esta obra, regressamos a uma Inglaterra longínqua, imemorial, temperada por um ambiente obscuro de conflitos entre reinos e religiões. A paz é o ideal mais desejado, mas consegui-la requer uma força superior que não está ao alcance de um mero mortal. Sacrifícios são necessários para fazer mover a história no sentido correcto e talvez a solução esteja onde menos se espera, escondida entre as brumas de uma terra há muito inatingível.

Nesta primeira parte de As Brumas de Avalon, torna-se claro que há uma forte vertente mágica a percorrer a narrativa. Este misticismo é fascinante, conferindo o toque ideal de fantasia à história. Porém, o que transforma esta história em algo tão especial e único é o facto de a magia ser uma característica que está intrinsecamente ligada às suas personagens.

Introduzem-se três mulheres que lideram o protagonismo. São elas Igraine, Viviane e Morgaine. Partilhando laços familiares muito próximos, depressa se consegue encontrar semelhanças entre elas, destacando-se o espírito de sacrifício, a perseverança e a independência comum às três. Porém, muitas são também as diferenças que as distinguem. Igraine, em primeiro lugar, apresenta-se como uma mulher resignada ao seu destino, com um espírito enegrecido pela tristeza em que vive. No entanto, é quando Viviane, a sua irmã, vem ao seu encontro que se põe em curso uma mudança drástica na vida de Igraine. É confrontada com as suas origens que agora lhe colocam um desafio inesperado, que terá de superar para garantir o funcionamento do plano de Viviane. Esta é determinada, perspicaz e recta como a sua posição lhe exige. É ela que concebe um futuro inquebrável e imutável, agindo de modo a acontecer aquilo que pretende sem olhar às adversidades que daí poderão surgir. Ainda assim, a certa altura Viviane revela-se uma mulher sofrida, que tal como Igraine se resignou ao seu doloroso fado. Mas é Morgaine, filha de Igraine e sobrinha de Viviane, quem se torna o centro do livro. Ainda criança, assiste a uma reviravolta na sua realidade que irá transformá-la interiormente. Ao atingir a fase adulta, dá-se um momento que a preenche de revolta e mágoa, alterando todas as suas crenças que até aí eram inquestionáveis. A decisão que toma, por fim, é arriscada e controversa, constituindo um preâmbulo de um futuro vago e incerto. Portanto, são três personagens marcantes, sendo Igraine a que mais alterações sofre ao longo da obra.

Ao apostar fortemente na perspectiva feminina, a autora faz com A Senhora da Magia uma ode à mulher. Numa época em que o homem dominava em força e inteligência, Bradley criou exemplos vincados de mulheres independentes, lutadoras e sábias que provam não ser inferiores ao mais banal dos homens, conseguindo ainda que estas os superassem com a sua visão única e consciente do mundo.

Outro aspecto importante mencionado neste livro é o conflito eminente entre religiões. De um lado figura o Cristianismo, com os seus ideais aparentemente imutáveis. É evidente o tom crítico existente em algumas passagens, que salienta a faceta primordial da Igreja, a da intolerância e da aversão relativamente a outras crenças. Do outro lado, surge o Paganismo, com as suas claras diferenças. Os seus rituais e costumes próprios são deslumbrantes, que aliados a um certo misticismo conseguem manter o leitor interessado em conhecer mais. As personagens regem-se à volta desta ambiguidade de crenças, contudo quando chega a altura de questionar sobre o que está bem ou mal em cada uma delas, conseguem-se óptimos momentos de reflexão ética que resultam na percepção de que não existe uma religião na humanidade que seja absolutamente perfeita.

É de destacar ainda que a história gira em torno de interesses políticos. Cada um tenta reunir o máximo de aliados possíveis de forma a concretizar os seus objectivos. Para tal, não importa se as acções são tomadas de forma honesta e leal ou usando a traição como arma de ataque, desde que o poder supremo fique garantido a quem se proclamar vencedor.

Dentro do género, Bradley é um caso singular. A sua escrita surpreendeu-me por ser rápida, inteligente e funcional, revelando-se extremamente estimulante. Os acontecimentos sucedem-se na ausência de pausas significativas, havendo por vezes saltos temporais que impedem a monotonia da leitura. Além disso, os cenários são magnificamente elaborados, transmitindo uma magia muito própria. Deste modo, depressa se atinge o final com a ânsia de ler imediatamente o próximo volume.

Com muito agrado terminei A Senhora da Magia, o primeiro de quatro volumes de uma saga que se principia de maneira magistral. Algumas ideias fulcrais ficam esclarecidas, como o dever de fazer aquilo que está correcto, a imprevisibilidade do destino e ainda a impotência em controlar forças que estão para além do nosso limiar de acção. Estes são ensinamentos a ter em conta a fim de assegurar um futuro concreto para Avalon e para aqueles que lhe foram, são e serão fiéis.

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