segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Harry Potter E A Ordem da Fénix


Título original: Harry Potter and the Order of the Phoenix
Autora: J. K. Rowling
Nº de páginas: 756
Editora: Editorial Presença
Colecção: Estrela do Mar

Sinopse
«Este tem sido um Verão ainda mais insuportável que o costume, para Harry Potter. Sozinho com os Dursley, não consegue perceber por que razão Ron e Hermione lhe enviam respostas tão vagas às suas cartas...Isolado do mundo mágico a que pertence, Harry segue atentamente os noticiários, convencido de que até os Muggles se aperceberão de alguma coisa, se Lord Voldemort voltar a atacar... E é então que os acontecimentos se precipitam. Parece impossível, mas, no bairro mais Muggle do mundo Muggle, Harry é emboscado por Dementors! Para salvar a sua vida e a do primo Dudley, Harry não tem outra hipótese senão usar magia – mesmo sabendo que isso significará a sua expulsão mais que certa de Hogwarts. Enquanto o Ministério da Magia continua a não acreditar que o terrível Senhor das Trevas está de volta, Voldemort e os seus fiéis Devoradores da Morte já começaram a preparar o seu regresso ao poder. Porém, há uma nova esperança: uma antiga ordem secreta, da qual os pais de Harry fizeram parte, voltou a organizar-se e Dumbledore está atento. Harry Potter está de volta para mais um ano cheio de perigos, suspense, revelações inesperadas – e, claro, magia! Eis o tão aguardado quinto volume da série que tem vindo a encantar miúdos e graúdos no mundo inteiro, da autoria J. K. Rowling.»

Opinião
Algo que se nota de livro para livro é o inquestionável aumento de tamanho dos mesmos. Se o quarto volume continha cerca de o dobro das páginas do terceiro, então este quinto livro conseguiu superar essa proporção com umas impressionantes setecentas e cinquenta e seis páginas. Seria de esperar que tal quantidade contivesse um conteúdo recheadíssimo, repleto de acção e descobertas sucessivas. O que acontece na realidade não corresponde, de todo, às expectativas criadas.

Naquele que é o maior livro de toda a saga, o desenvolvimento do enredo é praticamente nulo na maioria dos capítulos. Uma situação interessante de quando em vez e um raro momento inesperado são os contributos para uma leitura que se torna muito pausada. Depois da intensidade de O Cálice de Fogo, esta quebra sente-se notavelmente em A Ordem da Fénix. Porém, à medida que se avança, compreende-se o porquê desta diferença. Enquanto que no volume anterior a acção dominava sobre as personagens, não lhes dando espaço para florescer, neste livro ocorre precisamente o contrário. Há espaço em demasia para as suas personagens em diversos e longos diálogos, nos quais se identificam as relações entre elas, as suas próprias virtudes e defeitos bem como os seus receios. Este não se deve considerar, ainda assim, um factor negativo.  Afinal, como se pode julgar um livro quando o mesmo joga preferencialmente a favor do elemento mais importante de toda a trama, que, a meu ver, são as personagens? É apenas uma opção diferente, de certo modo inesperada, que enriquece a história de outra forma. Sentimentos e pensamentos abundam em Harry Potter e a Ordem da Fénixacabando este por se tornar num relato principalmente emocional, que ainda assim não se priva de alguns momentos fantásticos de acção.

É precisamente no foro emocional da figura de Harry Potter que autora começa por investir. O rapaz que vive em Privet Drive com os seus horríveis tios e o seu mimado primo Dudley sente-se revoltado, desolado, deslocado, só no seu próprio canto entre a gente Muggle. Sem notícias dos amigos, Harry vive na ignorância sem ter conhecimento do que acontece no mundo da feitiçaria. É então que algo de muito estranho ocorre naquela localidade e que não se imaginava ser possível. Depressa, Harry é envolvido num turbilhão de acontecimentos que o levam de novo para perto dos seus companheiros. Finalmente, é posto a par das notícias e apercebe-se de que muito ocorreu na sua ausência. Ninguém esteve parado, muito menos as trevas que tudo fazem para alcançar o seu propósito. Mas o bem também se reúne em segredo. Conseguirá, ainda assim, reunir forças suficientes para combater as ameaças do mal?

Nesta missão surgem novas personagens, nomeadamente Nymphadora Tonks e Kingsley Shacklebolt. Quanto à primeira, é uma jovem hilariante e corajosa sempre pronta para desafios. Já o segundo, é um homem astuto, resoluto e afável que põe na sua tarefa toda a sua dedicação. São duas figuras cativantes que, no entanto, são pouco exploradas. Além delas, temos o regresso de Alastor Moody, sempre característico nos seus actos e palavras, Remus Lupin, um amigo leal mas sobretudo consciente da realidade, e ainda Sirius Black, do qual se fica a conhecer bastante neste livro. É-nos narrada parte da sua história e da sua família, bem como os seus impulsos de revolta no passado e as suas intenções de viver no presente. Ganhei um carinho especial por Sirius, um ser que acima de tudo foi incompreendido pelos seus semelhantes. Já de regresso a Hogwarts, conhecemos uma rapariga extremamente peculiar, dotada de um dom para marcar a diferença. Falo de Luna Lovegood, alguém com hábitos e conversas estranhas, aparentemente muito ingénua, mas que acaba por se revelar uma personagem bastante simpática, humilde e sincera, talvez a mais consciente entre os jovens. Harry consegue rever-se nela, pois também Luna carrega consigo o peso de um passado trágico. Porém, não podem haver só boas adições. No corpo de docentes existe uma nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, Dolores Umbridge. Inicialmente parece apenas uma mulher irritante com uma grande vontade de se impor, chamando as atenções para a sua pequena figura, e aos poucos essa ideia se desvanece. A verdadeira faceta de Umbridge revela-se com as suas atitudes, cada vez mais implacáveis e impensáveis. Com ela, Hogwarts torna-se um lugar indesejável para qualquer um. Quanto aos protagonistas, nota-se que os três passam mais tempo juntos, intensificando a sua já profunda e forte ligação. Ainda assim, a provação que Harry sofreu no ano anterior faz com que ainda se sinta magoado, sendo evidente em certos momentos a sua solidão interior. Quem ainda tem destaque, por razões especiais, é Snape. A sua arrogância e apatia já são conhecidas, mas neste livro conhecemos outra parte de Snape, através de um episódio muito breve que é o suficiente para ter um relance do que originou o ódio que este nutre por Harry. Além disso, uma nova ciência mágica praticada por Severus é-nos introduzida pela autora, acrescentando um certo mistério e fascínio quer à personagem quer à história em si. Por fim, é de notar não a relevância, mas sim a ausência de Dumbledore em quase toda a extensão do livro. As menções ao mesmo são constantes, mas a actividade desempenhada por ele é pontual. Estranho ao leitor enquanto lê, mas claro quando é explicada a razão de tamanha falta.

Ainda assim, Rowling conseguiu manter viva a luz da aura de Dumbledore com a criação do Exército de Dumbledore. Esta é uma organização onde se reúnem Harry, Ron, Hermione e todos aqueles que se propõem a lutar pelos valores que defendem. Juntos, os feiticeiros aprendem como a magia pode ser útil nessa defesa e, inevitavelmente, formam um elo único de amizade, compreensão e tolerância. A determinação com que se aplicam nesta tarefa é inestimável, demonstrando que já não são meras crianças, antes jovens adultos que escolhem as suas decisões sabiamente e que sabem quais são as suas ambições, utilizando-as para mudar aquilo que os rodeia para melhor.

A magia é um factor que está sempre presente, principalmente quando chegam os últimos momentos e a tensão começa a surgir. O terror abate-se finalmente sobre Harry e este é obrigado a agir, com a ajuda dos seus amigos. Nas cenas em que se descreve o que se sucede, o ritmo desenfreia-se a uma velocidade vertiginosa, distintamente do que até aí acontecia. O suspense é enorme, as incertezas aumentam e a pirâmide de mistérios que se foi construindo colapsa num estrondoso final ao qual ninguém escapa. É trágico, sem dúvida, pois as trevas mostram-se, afinal, reais. Cruas e frias. Contudo, enfrentá-las é a única solução para fomentar a esperança de um bem maior, custe isso o que custar.

Desta forma, conclui-se que este é mais um capítulo negro na vida de Harry Potter. Com alguns pontos épicos de acção, é um livro que assenta fundamentalmente na reflexão das suas personagens, nas questões da vida e da morte, que afinal podem não ser assim tão diferentes uma da outra. Enquanto divagamos entre estas complexas ideias, fica uma simples certeza: os próximos tempos não serão nada fáceis.

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