quarta-feira, 16 de julho de 2014

Vida Roubada


Título original: The Orphan Master's Son
Autor: Adam Johnson
Nº de páginas: 480
Editora: Saída de Emergência

Sinopse
«Jun Do é o filho atormentado de uma cantora misteriosa e de um pai dominante que gere um orfanato. É nesse orfanato que tem as suas primeiras experiências de poder, escolhendo os órfãos que comem primeiro e os que são enviados para trabalhos forçados. Reconhecido pela sua lealdade, Jun Do inicia a ascensão na hierarquia do Estado e envereda por uma estrada da qual não terá retorno. Considerando-se “um cidadão humilde da maior nação do mundo”, Jun Do torna-se raptor profissional e terá de resistir à violência arbitrária dos seus líderes para poder sobreviver. Mas é então que, levado ao limite, ousa assumir o papel do maior rival do Querido Líder Kim Jong Il, numa tentativa de salvar a mulher que ama, a lendária atriz Sun Moon.
Em parte thriller, em parte história de amor, Vida Roubada é um retrato cruel de uma Coreia do Norte dominada pela fome, corrupção e violência. Mas onde, estranhamente, também encontramos beleza e amor.»

Opinião
E se, num súbito piscar de olhos, fossemos catapultados para uma outra dimensão da realidade terrena? O que faríamos? Como enfrentaríamos, munidos de um pensamento cingido à nossa própria vida comum, esse ideal de uma realidade previamente desconhecida? Com entusiasmo? Exaltação? Indiferença? Apreensão? Pavor? A verdade é que a solução para o problema que aqui é confrontado é simples: depende da realidade. O que é, contudo, necessário ter em conta, é o facto de que existem realidades que nem o mais versátil e insólito imaginário humano está preparado para conceber. E, no entanto, esse cenário é incrivelmente factual e ocorre apenas a alguns milhares de quilómetros de distância, no mesmo mundo partilhado por milhões de nossos iguais.

Vida Roubada é uma viagem que começa e acaba no outro lado do mundo, na conturbada nação da Coreia do Norte. É neste universo singular que encontramos o nosso protagonista. Pak Jun Do. Jun Do é um orfão por força das circunstâncias, irmão de órfãos e ele próprio guardador das vidas irrelevantes de órfãos. O seu nome advém de um mártir e a incrível coincidência é que ele próprio, sem se aperceber, torna-se um mártir da nação. Jun Do é desde cedo colocado em situações e locais improváveis, que lhe escapam ao controlo. É obrigado a enfrentar o seu destino à medida que lhe é sujeito -  um destino longe do ideal sonho pessoal que qualquer um anseia para si próprio, tendencioso para actos de violência e trabalhos extenuantes. Contudo, Jun Do aceita tudo isso sem questionar a sua vontade. Ainda assim, há algo de muito precioso que tira de cada vez que as circunstâncias o empurram numa nova direcção. Jun Do apreende o que a vida lhe dá, bom ou mau, e aprende com isso. Todas as lições e conhecimentos que obtém serão fundamentais para o ponto de viragem em que a pessoa se reduz a carne, e a carne novamente a pessoa. Nesta figura, Adam Johnson abrange a realidade de um povo inteiro que teve o infortúnio de nascer no local errado. Nela, emana a insignificância da identidade pessoal que é suprimida a todo o custo. No entanto, é levantada outra questão: será puramente pelo despeito pela individualidade que se homogeneíza uma civilização ou subsistirá um colossal medo que as elites secretamente detêm pelo poder que uma única voz activa pode ter no mundo? A concretização desta ideia acontece nesta obra. Jun Do consegue, ao contrário de todos os outros, evoluir, ter um papel decisivo no seu destino porque conhece, a certa altura da sua existência, o que significa ser livre. Não a liberdade que conhecemos como a mais estrondosa explosão de sentimentos que nos permite fazer qualquer coisa que nos apeteça. Apenas a liberdade de pensar e de decidir ser livre.

Enquanto retrato da "maior nação do mundo", Johnson revela que para o mero cidadão existe um conceito igualitário e minimalista na medida em que todos são um, e um são todos. A unidade é o líder, a figura reverendíssima de Kim Jong Il, esse motor da grandiosa Coreia do Norte. Todos os restantes são pequenas peças comandadas que contribuem para o grande movimento da máquina nacional, operacional graças ao patriotismo impregnado em cada indivíduo "claramente" orgulhoso das suas raízes. Não obstante, ao analisar o retrato no seu sentido vital - o humano - a orgulhosa máquina democrática é uma fábula não concretizada. Há, em seu lugar, uma rendição geral ao que é inevitavelmente incontrolável. Existe, somente, um poder absoluto de uma ditadura que exala uma perfeita resiliência resultante de uma combinação de extrema subjugação e de um bem arquitectado ludíbrio. O controlo é, efectivamente, feito de uma forma que não poderia ser mais eficaz. Sabe-se que isto é verdade quando nem é dado a conhecer à mente a palavra liberdade. A rendição é tal que o ócio nem parece ser um incómodo. A máquina move-se sempre no mesmo sentido, percorrendo sempre o mesmo caminho. Infalível, directa e assertiva. Na Coreia do Norte não se nasce. É-se feito. 

Mas até no país mais censurado e cruel existe, nos seus recônditos, fascínio e beleza. Prova disso é a mulher idolatrada pelo pequeno mundo coreano, Sun Moon, também ela adorada por Jun Do. Não sendo uma personagem com um carácter especialmente atractivo, é o seu simbolismo enquanto actriz nacional que conduz à admiração partilhada por todos. Os seus filmes patrióticos são uma suposta arma do grande líder, mas é numa pequena particularidade que o seu plano é ameaçado. Sun Moon condensa na sua representação todas as emoções que os restantes cidadãos não podem manisfestar - a espontaneidade, genuinidade e fulgor das sensações que brotam do interior são unicamente permitidas a esta mulher. Por isso, a sua actuação é, para os espectadores (e leitores) mais atentos, uma mensagem de esperança. Jun Do vê nela esse carácter de esplendor, resultando daí uma relação de interdependência que se adensa em algo profundo. Porém, surge uma ambiguidade de afinidade: poderá um grande amor entre duas pessoas ultrapassar um amor pela pátria ao ponto de sacrificar a paz e uma segurança garantida?

Este romance é escrito de forma pungente, como seria de esperar. A autenticidade que o perpassa não deixa espaço para eufemismos. Johnson escreve com o poder de surpreender magistralmente e tocar o seu leitor, sendo por vezes doentio. A verdade é que é, na mesma medida, um relato encantador e fascinante da vida, belo na sua essência. Há diálogos e passagens assombrosos e deliciosos, nos quais a leitura se suspende para uma reflexão momentânea. Outra beleza desta escrita é o modo como é feita a narração. Enquanto Jun Do se cinge à vida que lhe é atribuída, há uma coerência que as palavras seguem. No entanto, quando se dá a mudança na sua interioridade, deixa de haver uma sequência lógica, temporal ou espacial. A composição torna-se espontânea. Sentida. Como a vida. 

De notar que, apesar de ser um livro ficcional, estamos perante um tema verídico. Com efeito, é fundamental ler este livro consciente da realidade que nos é dada a conhecer e da realidade que é a nossa. Não adianta criticar, condenar ou sequer ridicularizar a acção e pensamento de gente que toda uma vida foi habituada a agir e a pensar de forma diferente da nossa. É, sim, fulcral confrontar o que de melhor e de pior existe entre as duas. Afinal, somos todos humanos, milhares de milhões de mentes herdadas geneticamente da mesma origem. Em que altura surgiu a falha que conduziu às diferenças massivas entre mentalidades? 

Inquestionavelmente um livro de impressionante qualidade, Vida Roubada é uma intensa experiência de como é viver e ser parte de um país extremamente constrangedor e manipulador. Exprime a força que a necessidade imprime na vida humana de tal modo que a leva por caminhos inesperados e potencialmente nocivos para que se consiga atingir os anseios mais profundos. Há poder verdadeiro neste livro, um toque abismal de humanidade, uma energia capaz de fazer mudar a nossa própria realidade. Adam Johnson é merecedor de todos os elogios que colocaram Vida Roubada no topo das obras contemporâneas de destaque. Só quem compreende o que é ser verdadeiramente humano poderia conceber uma obra tão sublime como esta. E, sem dúvida, Johnson consegui-o.

2 comentários:

Fiacha disse...

Olá viva,

Um livro fantástico sem a menor duvida e que está aqui muito bem comentado, parabens ;)

Foi quanto a mim uma das melhores leituras deste ano e a melhor distopia que li até hoje e já li algumas ;)

Abraço e a ver se passo por aqui mais vezes :)

Vc disse...

Olá, Fiacha

Muito obrigado pelo comentário. Livros destes não aparecem todos os dias e este merece todos os elogios que lhe fizerem.
Fico feliz por teres visitado o Refém das Letras. Volta para partilhares as tuas opiniões e leituras sempre que quiseres, és muito bem-vindo :)

Abraço!

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