sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A Revolta



Título original: Mockingjay
Autora: Suzanne Collins
Nº de páginas: 280
Editora: Editorial Presença
Colecção: Via Láctea


Sinopse
«Katniss Everdeen não devia estar viva. Mas, apesar dos planos do Capitólio, a rapariga em chamas sobreviveu e está agora junto de Gale, da mãe e da irmã no Distrito 13. Recuperando pouco a pouco dos ferimentos que sofreu na arena, Katniss procura adaptar-se à nova realidade: Peeta foi capturado pelo Capitólio, o Distrito 12 já não existe e a revolução está prestes a começar. Agora estão todos a contar com ela para continuar a desempenhar o seu papel, assumir a responsabilidade por inúmeras vidas e mudar para sempre o destino de Panem - independentemente de tudo aquilo que terá de sacrificar…»

Opinião
Panem está em cinzas. As chamas continuam a propagar-se pelo espaço e atingem tanto rebeldes como o Capitólio. A certo ponto, torna-se incerto quem está na frente da batalha e todos os possíveis movimentos são imprevisíveis. De facto, se há palavra que define esta última parte da trilogia é imprevisibilidade - o quê, quando, quem e como são uma profunda incógnita a cada virar de página. Com isto, Collins consegue a proeza de aliar a uma obra com o seu quê de aventura momentos de serenidade que exploram enredo e personagens, provocando a reflexão sem comprometer o ritmo de leitura. Tendo este forte trunfo em seu benefício, este terceiro tomo cumpre o seu propósito enquanto fonte de entretenimento e livro final de saga. Mas A Revolta é ainda mais que tudo isto.


Na realidade, revendo os primórdios desta história que com Os Jogos da Fome enraizou um potencial imenso quer pela sua originalidade, quer pelas alegorias que patenteava face à realidade em que vivemos, sente-se aqui o factor fundamental desta obra: uma crítica mordaz ao sistema político e judicial de uma sociedade de vícios imersa em corrupção doentia e sede de poder. Fulminada por uma concorrência desleal, a batalha pelo lugar principal de comando não passa de um jogo escrupuloso em que não há regras e que aqui é muito bem jogado. Prova disso é o final surpreendente, mas inesperado, com que Collins brinda um leitor que até aí pensava já ter assistido ao desfecho principal. Embora não pareça, todo o encadeamento da acção assenta em planos bem elaborados que se destrinçam e se revelam no fim. E para combater esta preponderância pode contar-se com a espontaneidade do nosso mimo-gaio, Katniss Everdeen.

Enquanto figura do enredo, Katniss tem uma dimensão tremenda. Os actos que empreendeu permitiram-lhe ter uma voz, uma expressão singular como nenhum outro cidadão. Ela simboliza a revolta, a força dos reprimidos. É o fogo que emerge das cinzas, a esperança inextinguível perante tantas adversidades. Portanto, é tanto adorada pelos seus iguais como é odiado pelos seus inimigos. Mas será que Katniss, a rapariga do Distrito 12, aceita a condição que lhe tentam incutir? Poderá a segurança da família e daqueles que ama alterar a sua decisão? O que importa verdadeiramente nesta luta? Sacrifício ou amor? Ou ambas as coisas? Ou nenhuma? É nesta amálgama de pensamentos que Katniss se encontra enquanto personagem, numa indecisão e confusão tremendas, quase parecendo, a certo ponto, uma crise de identidade ou de falta de auto-consciência. Katniss sabe o que quer, mas não como lá chegar nem ao que recorrer. Não esquecendo que este livro é destinado a jovens adultos, penso que houve todo um propósito de familiarizar este tipo particular de público com sensações suas conhecidas e próprias da sua faixa etária. Existe medo, insanidade, mas também coragem e genuinidade. É somente nos momentos finais que Katniss evolui para algo consistente. E as suas acções falam por si. Afinal, um passado traumático pode fazer muito no âmago de uma pessoa, e Katniss teve a sua parte de trauma que chegue para mil vidas. Peeta é o outro personagem recorrente neste livro, não fosse ele um dos motivos que desencadeou toda a corrente situação. Se antes Peeta era alguém fortemente independente e capaz de agir sem demonstrar intencionalidade alguma, aqui o papel inverte-se. Peeta é manipulado sem ter poder para protestar e agir por vontade própria. O controlo sobre ele é tal que acontece o imprevisto (porém o inevitável, sabendo em que mãos se encontra o seu destino). É uma figura diminuta enquanto participante, mas profundamente simbólica. Quanto às restantes personagens, introduz-se Coin, a presidente do Distrito 13, que desempenhará um papel importante, sendo os restantes intervenientes rostos já conhecidos, tais como Haymitch, Effie, Prim ou ainda Gaile, o companheiro de Katniss.

Quanto à narrativa, esta prende-se inicialmente a um ritmo mais moroso, sendo que com o adensar da trama há um despoletar de acontecimentos que torna a acção vertiginosa. O facto de haver vários cenários à medida que se avança ajuda bastante na celeridade da leitura, não havendo portanto uma monotonia indesejável. Já a escrita é simples e acessível, tal como anteriormente, porém aqui pautada por um sentido mais crítico. Uma vez que é a pessoa de Katniss quem se dirige ao leitor, seria de esperar uma reflexão ingénua. Ainda assim, estando em grande parte consciente da situação, Katniss tem poder de argumentação e fá-lo de forma satisfatória.

Culminando esta saga com um episódio deveras imprevisto, como já anteriormente referi, Collins atreveu-se ao máximo e arriscou bastante. Decerto que desagrada a tantos como agrada, mas inquestionavelmente surpreende. O que não surpreende é ser Katniss a sentir tudo na pele, a dor, o cansaço, a vitória, a derrota, o amor, a resignação, a revolta, mas por fim a cumprir o seu papel. Vale a leitura de todas as páginas só para chegar àqueles momentos finais onde se encontra a pérola desta história, o fulminante desencadear de uma tempestade que há muito se estava a formar num horizonte oculto da vista de muitos, mas tão óbvio para quem percebe o jogo.

Portanto, de uma forma agradável e nada contida em emoção, A Revolta cessa esta trilogia distópica que nos trouxe uma abordagem nunca antes vista e que certamente contribui para uma referência do género. Prevalecem a originalidade do enredo e a força imensurável de uma protagonista que se transformou num símbolo, nessa metáfora com poder para fazer mover o mundo. Collins, enquanto escritora, forneceu à literatura uma saga que as próximas gerações vão idolatrar e com a qual se podem identificar - porque é isso que todos nós procuramos, afinal, neste universo mágico dos livros e da arte.

4 comentários:

Marisa Luna disse...

Olá!!
Eu tb adorei ler "A Revolta". Mesmo!!
E achei a adaptação ao cinema )parte 1) muito bem feita. Que achaste?
Um abraço e boa semana

Vc disse...

Olá, Marisa!

O livro está bom, sim. Já quanto à adaptação, embora também esteja bem, não achei que estivesse extraordinária. Além disso, acho que toda a ideia de dividir o último livro em dois filmes foi mais uma estratégia para ter receitas de bilheteira que outra coisa... Achei o filme muito parado, com um ritmo de acção nada conciso. Enfim, esperemos para ver o que vem na parte dois.
Obrigado pelo comentário!

Abraço e boas leituras ;)

Close Up! disse...

Esta crítica está excelente. Muitos parabéns!

Vc disse...

Obrigado, Close Up! É um bom livro, merecia uma boa crítica.

Abraço e boas leituras :)

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