terça-feira, 18 de agosto de 2015

Cloud Atlas - Atlas das Nuvens


Título original: Cloud Atlas
Autor: David Mitchell
Nº de páginas: 592
Colecção: Grandes Narrativas

Sinopse
«Seis vidas entrecruzadas – uma aventura extraordinária. Numa narrativa que dá a volta ao mundo e se estende desde o século XIX até a um futuro pós-apocalíptico, David Mitchell derruba as fronteiras do tempo, dos géneros literários e da linguagem para nos proporcionar uma visão arrebatadora da perigosa ânsia da humanidade pelo poder e até onde ela nos pode levar.»

Opinião
O enigmático título é, por si só, uma incógnita que apela à curiosidade. Fosse essa a única curiosidade digna de nota deste romance e Cloud Atlas - Atlas das Nuvens seria mais uma tentativa de compromisso entre originalidade e qualidade. De facto, se a originalidade é o ponto mais forte deste livro, a qualidade passa a ser o segundo. Isto porque a irreverência na concepção de David Mitchell é algo exclusivo, nunca antes tentado e explorado como aqui é feito.

Suponha-se que este livro é um caleidoscópio. O leitor está numa extremidade. A vida está na outra. Ao pegar neste caleidoscópio, o leitor vê o outro lado sob seis prismas, cada um na sua própria singularidade. É, no entanto, um mesmo fim que se avista, perante um mesmo objectivo. Um fim, ainda assim, verdadeiramente enriquecido pela multiplicidade e pela diferença.

São, pois, seis as personagens intervenientes. Atravessando oceanos e continentes por este mundo fora, seis sólidas e deslumbrantes personagens transpõem os limites temporais desde um remoto século XIX até um futuro pós-apocalíptico. A narrativa evolui de modo sequencial, por ordem cronológica, como se a cada capítulo o relógio avançasse para uma nova etapa da vida terrena. Ao contemplar o último protagonista, o tempo transfigura-se e somos catapultados para cada um dos intervenientes anteriores de maneira inversa, até voltarmos ao ponto de partida, o que permite observar de novo cada uma das personagens mas de um modo completamente diferente do inicial. É nesta simetria inquietante que recai o grande objectivo e princípio deste livro: o tempo é eterno, a história é cíclica, o homem é finito. As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Estejamos integrados numa tribo selvagem ou numa sociedade moderna, apesar de todas as evidentes diferenças e aparentes avanços ou recuos, existe sempre o mesmo propósito: poder. Persuasivo e corrosivo, este instrumento é intemporal, norma em qualquer canto do planeta onde dele exista um mínimo vislumbre. Porquê? Porque o poder é riqueza. É domínio. É excitante. Porque o poder sabe bem a quem o tem. Contudo, nem tudo o que sabe bem é o bem. Se inúmeras batalhas e duas guerras mundiais não nos ensinaram isso, não sei o que o fará.

Posto isto, vêm outras questões: o que é o bem? Como se distingue o correcto do errado? Até que ponto se pode utilizar a ambiguidade como argumento? Evidentemente, este livro é profundamente introspectivo. Dá que pensar e repensar e cada capítulo é único neste aspecto, aliado à singularidade da sua personagem e à sua dimensão pessoal. Contudo, existe sempre um elo filosófico entre as seis vidas aqui patentes, não fosse este um sexteto - brincadeira do próprio Mitchell a certo ponto - dirigido sob a sua batuta na orquestra da humanidade. O resultado é, pois, uma heterogénea harmonia, por vezes acutilante, outras vezes suave, permanentemente espelhando em cada nota o verdadeiro significado da vida.

Com efeito, esta não é uma leitura fácil. A obra avança célere, mas queremos ficar retidos em certas passagens, absorver a sua linguagem e incorporá-la em diversas linhas de pensamento. O ritmo torna-se lento, denso, mas é totalmente avassalador. Mitchell é mais que um inteligente escritor. É também um sábio professor. Ao explorar diversos conhecimentos científicos, linguísticos, históricos, artísticos e religiosos condensa todos os interesses físicos e metafísicos que o homem revela ter e mina, nas suas diversas essências, a própria essência humana que os une, porém que também os separa. Um livro destes exige perspicácia e atenção. Facto é que somos recompensados a cada instante.

Talvez seja relevante referir que a história em si, contendo as suas seis pequenas histórias, não se distingue pela resolução da mesma. A partir de determinado momento, torna-se expectável o destino de cada interveniente. Seja pela profundidade bem cimentada de cada um que permite ao leitor conhecer a fundo a personagem e, de certo modo, pensar como ele, seja pela transversalidade que atravessa as seis histórias e que a certo ponto se confundem, consegue-se conceber um futuro possível. A verdadeira importância prende-se, mais uma vez, com essa mesma transversalidade que figura entre personagens e, consequentemente, entre os leitores, na mensagem que Mitchell vinca como um sério aviso ao homem e ao seu livre arbítrio.

Na sua audácia e singularidade, Cloud Atlas - Atlas das Nuvens é um provocador ensaio do pensamento humano e das suas incontornáveis particularidades. A fluidez e viscosidade do tempo e da história alteram-se e sobrepõem-se entre si, nunca rematando uma barreira definitiva entre visões e épocas, que no fundo se confundem por possuírem tanto em diferença como em semelhança. Esta é uma obra magistral, impressionante, que oferece viagem e sonho, numa névoa indistinta que permite sempre novas possibilidades ao ser desbravada, mediante o propósito que se afronta. Um autor brilhante. Um dos melhores livros dos últimos tempos.

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