terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Anna Karénina



Título original: Анна Каренина
Autor: Lev Tolstói
Nº de páginas: 800
Editora: Editorial Presença
Colecção: Obras Primas da Literatura

Sinopse
«Anna Karénina é um retrato ímpar, na sua riqueza e densidade, da sociedade russa de finais do século XIX, que abrange diferentes estratos da população, atividades sociais, tendências ideológicas, polémicas económicas, sociais e políticas, e que encerra uma crítica acutilante à nova aristocracia russa da época. Os dramas familiares, com os seus problemas morais, a sua busca de um ideal para a vida em matrimónio, surgem em franca ligação com o panorama geral da vida, o sistema de valores, os hábitos, os conceitos éticos e religiosos. Mas é também uma das maiores histórias de amor da literatura universal, e uma das mais trágicas, protagonizada por Anna Karénina, a bela mulher de um aristocrata muito rico e o Conde Vrônsky, um galante oficial do exército. Com Anna Karénina, Lev Tolstói elevou à perfeição o romance de realismo social e criou uma das heroínas mais amadas da literatura de todos os tempos.»

Opinião
Todas as famílias felizes são parecidas, cada família infeliz é-o à sua maneira. É com esta premissa que Tolstói inicia o seu complexo e deslumbrante romance Anna Karénina, desde logo antevendo uma história que recai sobre pessoas e as suas vicissitudes. Mas mais que um relato dessas vidas, Anna Karénina é um intrincado retrato de uma sociedade num momento de viragem, na qual se move um conjunto peculiar de personagens cujas virtudes e ambições, bem como falhas e incoerências, são o espelho de espíritos inquietos e insatisfeitos perante a própria existência. 

É, pois, através de um vasto leque de personagens que Tolstói faz brotar esta obra. Preenchidas de múltiplos aspectos comuns, ainda assim muito diferentes e ímpares, essas figuras são a alma do romance e o meio pelo qual o autor revela o seu profundo lirismo. Evidentemente, Anna Karénina tem grande relevância, apesar de não se apresentar como protagonista como numa primeira instância é sugerido. Esta mulher é o resultado de uma mistura explosiva de inconstância, paixão e deslumbramento que personifica a procura pelo verdadeiro amor. O seu percurso conturbado mostra que a liberdade e a felicidade podem ser inimigas quando uma põe em questão a outra. Anna é alguém à frente do seu tempo, uma visionária da condição pessoal e emancipação feminina. A necessidade de ser diferente dos demais, mas nada mais do que afirmar-se como ela própria, encaminha-a para a perdição. Ao redor de Anna Karénina estão presentes outras figuras de destaque, nomeadamente Vrônski, Oblônski, Kitty e Lióvin. Na minha opinião, Lióvin é a personagem melhor conseguida em Anna Karénina, quer pela sua dimensão pessoal permanentemente introspectiva, quer pela sua evolução notável através da qual ele próprio se constrói e adquire a sua identidade. É interessante fazer o paralelismo entre Anna e Lióvin já que, apesar de pouco se cruzarem, têm a mesma relevância na obra e apresentam percursos opostos para um mesmo objectivo: preencher o vazio interior ao alcançar a essência da vida.

De facto, Anna Karénina não é de todo um livro fácil. Na verdade, as expectativas que criei caminhavam mais no sentido de esta ser uma história de amor e de relações humanas. Não deixa de o ser. Porém, sinto que não é esse o tema central sobre o qual Tólstoi se debruçou nem que era esse o seu objectivo. A temática das relações é utilizada como pano de fundo para outra temática mais abrangente e delicada: a situação social e política da Rússia do século XIX. Desta forma, Tolstói tece a sua crítica à sociedade da época e aos seus preceitos. Adultério, religião, política, economia e arte, ingredientes que se confundem e entrelaçam numa Rússia tão cosmopolita quanto rural e que culminam num complexo retrato de um país com firmes convicções e orgulho soberano. 

Da mesma forma que a narrativa é complexa, também o é a leitura. Com uma prosa carregada de metáforas, simbolismos e reflexões, Anna Karénina convida o leitor à introspecção de forma a que este se reveja nas suas personagens riquíssimas. Simultaneamente, a atenção ao detalhe factual e a precisão de determinadas passagens completam de forma brilhante a narrativa, tornando-a ainda mais complexa. É, pois, natural que o ritmo seja lento e que se leve algum tempo a dar por terminada esta obra. Não obstante, sem sombra de dúvidas que compensa todo o tempo nela despendido.

Anna Karénina efectivamente preenche os requisitos fundamentais para figurar como clássico aclamado da literatura universal. Tanto pelo drama das suas personagens como pela riqueza da sua prosa, este romance atinge uma qualidade brilhante. A sensibilidade e o génio de Tolstói elevam ao máximo a condição humana para pôr a nu uma sociedade que, embora grandiosa, se rege por falsas aparências e regras imparciais absolutamente incomportáveis para as almas voláteis.

Finalmente, uma nota de destaque para esta edição da Editorial Presença com uma tradução irrepreensível e um acabamento impecável, digna de figurar em qualquer estante.

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