quarta-feira, 30 de março de 2016

Lobo Solitário



Título original: Lone Wolf
Autora: Jodi Picoult
Nº de páginas: 408
Editora: Bertrand Editora

Sinopse
«Quando um lobo sabe que o seu tempo está a terminar e que já não é útil à alcateia, muitas vezes escolhe afastar-se. Morre assim isolado da sua família, do seu grupo, preservando até ao fim todo o orgulho que lhe é próprio e mantendo-se fiel à sua natureza. Luke Warren passou a vida inteira a estudar lobos. Chegou inclusivamente a viver com lobos durante longos períodos. Em muitos sentidos, Luke compreende melhor as dinâmicas da alcateia do que da sua própria família. A mulher, Georgie, desistiu finalmente da solidão em que vivia e deixou-o. O filho, Edward, de vinte e quatro anos, fugiu há seis, deixando para trás uma relação destruída com o pai. Recebe então um telefonema alarmante: Luke ficou gravemente ferido num acidente de automóvel com Cara, a sua irmã mais nova. De repente, tudo muda: Edward tem de regressar a casa e enfrentar o pai que deixou aos dezoito anos. Ele e Cara têm de decidir juntos o destino deste. Não há respostas fáceis, e as perguntas são muitas: que segredos esconderam Edward e Cara um do outro? Haverá razões ocultas para deixarem o pai morrer… ou viver? Qual seria a vontade de Luke? Como podem os filhos tomar uma decisão destas num contexto de culpa e sofrimento? E, sobretudo, terão esquecido aquilo que todo e qualquer lobo sabe e nunca esquece: cada membro da alcateia precisa dos outros e, às vezes, a sobrevivência implica sacrifício. Lobo Solitário descreve de forma brilhante a dinâmica familiar: o amor, a proteção, a força que podem dar, mas também o preço a pagar por eles.»

Opinião
Nas linhas da imaginação gostamos de pensar que basta uma conversa ou um gesto para mudar, de forma pacífica, a opinião de alguém ou até mesmo transformar o modo de ser dessa pessoa. Por vezes, nessa ingenuidade latente e imperceptível, esquecemo-nos que talvez essa pessoa possa pretender o mesmo, mas em relação a nós. O que faz da nossa opinião uma opção mais válida que a dessa pessoa? O que seria ganho com o nosso triunfo pessoal em detrimento do intento desse alguém? O prisma com que cada um de nós vê o mundo é a nossa identidade e o que nos define enquanto humanos, capazes de efectuar mudanças e atitudes segundo essa linha de visão. Contudo, quando essa visão é unilateral e opaca a outros raios de luz que preferimos ignorar, tornamo-nos incapazes de abranger certas zonas do espectro. Por outras palavras, ficamos cegos a certos tons devido à incapacidade de ver através de outros prismas, com consequente privação da possibilidade de erigir um quadro baseado na diversidade, integridade e, acima de tudo, compreensão. Nomeadamente no que toca às relações familiares, este quadro pode assumir uma multipolaridade cromática assustadora, quer pelo amor que se sente por alguém, quer pelo ódio que daí se pode gerar.

Lobo Solitário apresenta, pois, um quadro familiar complexo em que, à partida, é óbvia a polaridade distinta dos seus elementos. O que, outrora, fora um elo de harmonia entre quatro pessoas é agora apenas uma corrente frágil, prestes a ceder à pressão da instabilidade e do crescente afastamento. Luke Warren vive com a sua filha, Cara, em circunstâncias peculiares e fomentando uma relação ainda mais peculiar. Luke estuda lobos e o seu comportamento no seio de alcateias, numa tentativa de compreender a sua dinâmica relacional ao passo que, não tendo compreendido o que implica uma relação conjugal, foi deixado pela sua ex-mulher, Georgie, mãe de Cara, que entretanto refez a sua vida. Como extra, o irmão de Cara e filho de Luke e Georgie, Edward, fugiu sem justificação aos dezoito anos para outra parte do mundo sem nunca ter voltado. Neste retrato cada vez mais ténue, surge uma situação alarmante em que, inesperadamente, todos se reúnem. E será esse episódio, trágico e avassalador, que forçará ao de cima as memórias perdidas no tempo, permitindo a desmistificação de um passado incompreendido e, quiçá, a abertura de novos caminhos possíveis para o futuro.

Jodi Picoult consegue, com mestria, banquetear o leitor com essas revelações. À medida que são introduzidas as personagens e são construídas imagens sólidas de cada uma, verifica-se o propósito de determinados acontecimentos e a sua repercussão na relação estabelecida entre elas. Com esta entrega deliberadamente intermitente e cumulativa, Picoult agarra desde o início o leitor com uma narrativa cativante contada pelas vozes das suas diversas personagens. Além disso, é precisamente o facto de se apreender a mesma história sob diversas vozes que a torna ainda mais cativante e enriquecedora.

Luke, com a sua vivência detalhada nas alcateias, é um testemunho extraordinário de perseverança e dedicação à causa pela qual se luta, transmitindo um conhecimento valioso sobre as hierarquias que se formam numa alcateia e os motivos por detrás das atitudes dos lobos. Com este contexto, faz-se um paralelismo para o mundo das relações humanas que, de certa forma, se podem equiparar às que os lobos manifestam entre si. Porém, é quando Luke se embrenha a fundo na sua missão que se põe em questão o verdadeiro significado da linguagem relacional e o conceito de família. Compenetrando-se nesta nova realidade, Luke entra num domínio perigoso entre os seus lados humano e selvagem, apercebendo-se que não poderá viver num meio termo. A este interessante e complexo dilema assiste Cara, a sua filha, uma rapariga que, embora ingénua, é uma espontânea e obstinada força da natureza quando as circunstâncias a pressionam e testam a sua maturidade. No seu tumultuoso e invulgar crescimento, Cara reservou para si anseios e conflitos interiores que não resolveu, constituindo agora um obstáculo que lhe tolda a razão quando o seu julgamento é mais necessário. Edward, por seu turno, tem um temperamento impulsivo, mas compreensivo e delicado. Voltar a casa é, para si, como expor feridas que nunca sararam. O processo de reconhecimento interior é avassalador e, mais que nunca, totalmente imprescindível para poder avançar. Por fim, tem-se Georgie como mais uma prova da família estilhaçada, constituindo um relato que ajuda a clarificar o desenvolvimento da trama com reminiscências da vida passada. Georgie vê-se confrontada também ela com um acutilante dilema: poderá apoiar os dois filhos que ama sem daí magoar uma das partes? Neste leque de individualidades, torna-se óbvio que é a sua unificação que lhes dá força própria. A família é mais forte quando está completa. A família é um conjunto de heterogeneidades que perfazem uma mancha homogénea. A família é tudo, e tudo deve ser feito pela família.

Numa leitura que é eficaz e célere, existem detalhes que captam um olhar mais intrincado, como algumas descrições do foro médico e judicial, no que toca à situação específica de uma personagem. Por vezes, estes detalhes assumem um carácter repetitivo, não contribuindo com algo de novo para a trama e arrastando, assim, a leitura num compasso mais demorado. Apesar disto, esse recurso é sempre feito remetendo para os possíveis desfechos das personagens e, porventura, será essa reiteração de possibilidades que fará o leitor implicar-se e divagar quanto ao poder da decisão e ao peso da indecisão. Na realidade, este é um processo emocional difícil de digerir, principalmente quando as nossas acções remetem para uma pessoa cujo destino depende de nós. O tom humano percorre, pois, toda a obra, assim como um sentimento de ponderação entre o que é verdadeiramente importante na vida e o que pode constituir um vida digna de ser vivida. 

Lobo Solitário culmina com uma mensagem de esperança. Subtil mas glorioso, o final sublinha que, na vida, não existe um último capítulo, se assim quisermos. Se é verdade que, por vezes, não nos é possível escrever a nossa história, está contudo nas nossas mãos a capacidade de mudarmos o seu rumo se para isso lutarmos. Tudo depende da percepção, desse prisma com que olhamos para o horizonte, e da vontade que existe em preservar a identidade que está profundamente entalhada em nós e que nos define.

Mais que uma dedicatória à família e aos laços que nos unem enquanto humanos, Lobo Solitário demarca a importância das escolhas que fazemos e como estas influenciam quem amamos. É um instantâneo da efemeridade da vida e da beleza que existe em estar vivo. Com personagens absolutamente sedutoras e uma narrativa inclusiva, Jodi Picoult constrói uma história que toca o leitor pela sua verosimilhança e imprevisibilidade. Vale a pena arriscar e abraçar este drama emotivo que, para alguns, será mais um fantástico livro de Picoult, para outros um alerta precioso que ressoará na consciência como o uivo de um lobo.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Novidade Elsinore: "Uma Rapariga é Uma Coisa Inacabada" de Eimear McBride


Nº de páginas:
256
PVP: 17,69€
Lançamento: 28 de março

​Galardoado com diversos prémios e considerado logo como um clássico, Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada, um romance breve mas intenso, dá-nos o retrato nu do relacionamento de uma jovem com o seu irmão, e da longa sombra projetada, nas suas vidas, pelo tumor cerebral de que ele padece e pela família profundamente disfuncional em que vivem.

Narrado na primeira pessoa por esta rapariga sem nome, numa espécie de fluxo de consciência repleto de elipses e incoerências, que reflete o estado de quebra emocional da narradora, este é o romance de estreia de Eimear McBride, escritora irlandesa, considerada por muitos críticos a grande revelação de língua inglesa da última década. Ler este livro é mergulhar na mente da narradora, sentir a vida em bruto, tal como ela a atravessa. Nem sempre é uma experiência confortável - mas é decerto uma descoberta.

Sinopse
«Eu acho o teu rosto o melhor que há. Quando éramos nós éramos nós éramos novos. Quando eras pequenino e eu uma menina. Era uma vez. Vou lembrar-te lembra-te bem. Agora. Não nessa altura. E eu ajoelho-me sobre a tua cama tranquila. Beijo a tua cara. Saio do quarto. Eu vou. Dormir. Tal como tu.»

Uma Rapariga É uma Coisa Inacabada venceu diversos prémios: Baileys Women's Prize for Fiction, Goldsmiths Prize, Kerry Group Irish Novel of the Year Award Desmond Elliott Prize e Geoffrey Faber Memorial Prize.

​A crítica
​«​Um futuro clássico. […] Inevitavelmente comparável ao cânone irlandês - os monólogos de Beckett, o solilóquio de Molly Bloom de Joyce em Ulisses, e a prosa ontogenética de Retrato do Artista quando Jovem - e às vanguardistas britânicas e irlandesas: Edna O’Brien, Virginia Woolf, Ann Quin.» - Joshua Cohen, New York Times

«Eimear McBride é uma espécie em vias de extinção: um génio. O leitor ousado irá perceber que tem nas mãos um livro a sério, vivo, um livro como nenhum outro.» - Anne Enright, vencedora do Man Booker Prize

«Um livro notável. […] A linguagem é desconstruída com engenho para tornar novas e estranhas experiências que nos são familiares, mas existe nessa desordem vitalidade, e até um certo agrado. McBride vai mais longe do que Beckett naquilo a que o próprio chamou "sintaxe da fragilidade".» - The New York Review of Books

«Um romance fulgurante e original.» - James Wood, The New Yorker

A autora
Filha de irlandeses, nasceu em 1976 em Liverpool, mas a família regressou à Irlanda quando Eimear ainda era criança. Escreveu um só romance, que demorou nove anos a publicar depois de o ter enviado para dezenas de editoras, sem receber resposta.
Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada foi imediatamente aclamado e considerado um clássico aquando da publicação numa pequena editora, o que lhe garantiu o convite imediato para ser representada por Andrew Wylie e a consagração enquanto grande revelação literária dos últimos anos. Mais sobre a autora em: eimearmcbride.com

domingo, 20 de março de 2016

Parceria de Lançamento Bertrand: "O Lobo Solitário" de Jodi Picoult




No contexto de um passatempo promovido pela Bertrand Editora, o Refém das Letras foi um dos sete blogues seleccionados como parceiros oficiais de lançamento do mais recente livro de Jodi Picoult, O Lobo Solitário

Para além de ser um enorme privilégio e prazer para o blogue poder participar nesta iniciativa, é com muito entusiasmo que anuncio que no passatempo constavam não um, mas dois exemplares do livro! Isto significa que, sendo um para o blogue, outro será para um dos leitores!



Brevemente serão publicados mais detalhes. Entretanto, mantenham-se a par das novidades e descubram o que reserva esta nova obra de uma das autoras mais aclamadas internacionalmente dentro do género. Saibam mais aqui.

Boas leituras!

Novidade Bertrand: "Os Lobos de Calla" de Stephen King


Género: Literatura / Fantástico 
Tradução: Rosa Amorim
N.º de páginas: 800 
Data de lançamento: 18 de março 
PVP: 24,40€

A obra mais visionária do autor. 

Sinopse
«Roland Deschain e o seu ka-tet atravessam as florestas do Mundo Médio em direção à Torre Negra. O caminho leva-os aos arredores de Calla Bryn Sturgis, onde, sob a calma vida campestre, se esconde algo horrível. A cada geração, vindos das trevas do Trovão, chegam seres com máscaras de lobos montados em cavalos cinzentos, para roubarem as crianças da vila. Resistir-lhes implica arriscar tudo, mas os pistoleiros fazem do risco a sua vida. As suas armas, contudo, não serão suficientes… »

A crítica
«Momentos de fantasia impressionantes, episódios de uma tensão extraordinária e uma cena de terror arrasadora.» - Publishers Weekly 

«Stephen King no seu melhor.» - Library School 

O autor
Stephen King é um dos mais populares autores contemporâneos. Escreveu mais de quarenta livros, incluindo Carrie, A História de Lisey e Cell, Chamada para a Morte. Muitos desses livros foram adaptados ao cinema por realizadores como Stanly Kubrick, Brian De Palma ou Rob Reiner. Recebeu diversos prémios literários ao longo da sua carreira, incluindo o Bram Stoke Award, o World Fantasy Award, o Nebula Award e o prestigiado National Book Award. Conta hoje com mais de trezentos milhões de exemplares vendidos em cerca de trinta e cinco países. Números e um currículo impressionantes a fazerem jus ao seu estatuto de escritor mais bem pago do mundo. www.stephenking.com

sábado, 12 de março de 2016

Novidade Topseller: "A Vingança Serve-se Quente" de M. J. Arlidge


Nº de páginas: 352
PVP: 18,79€
Lançamento: 14 de Março

Autor de thrillers de leitura imparável, M. J. Arlidge é considerado uma das maiores revelações dos últimos anos dentro deste género literário. Depois de uma estreia fulgurante com Um, Dó, Li, Tá, seguindo-se À Morte Ninguém Escapa e, mais recentemente, Casa de Bonecas, A Vingança Serve-se Quente traz-nos uma nova aventura da detetive Helen Grace.

Sinopse
«Seis incêndios em vinte e quatro horas, dois mortos e vários feridos…
Na calada da noite, três violentos incêndios iluminam os céus da cidade. Para a detetive Helen Grace, as chamas anunciam algo mais do que uma coincidência trágica – este cenário infernal de morte e destruição revela uma ameaça nunca antes vivenciada.
No decurso da investigação, descobre-se que aquele que procuram não é apenas um incendiário em busca de emoções fortes – os atos criminosos denunciam um assassino meticuloso e calculista. Alguém que pretende reduzir as suas vítimas a cinzas…
Uma nuvem negra de medo e desconfiança estende-se sobre a cidade, à espera de faísca que provocará a próxima tragédia. Conseguirá Helen descobrir a tempo quem será a próxima vítima?»

Pode aceder às primeiras páginas aqui.

A crítica
«Um thriller policial alucinante, que irá certamente ser mais um bestseller.» – Huffington Post

«Uma leitura arrepiante.» - My Weekly

«Uma das melhores séries de investigação atuais.» - Lisa Gardner autora bestseller do New York Times

«Cruelmente realista, intrigante e impiedoso.» – Sunday Mirror

O autor
M. J. Arlidge trabalha em televisão há mais de 15 anos, tendo-se especializado em produções dramáticas de alta qualidade. Nos últimos anos produziu um grande número de séries criminais passadas em horário nobre na ITV, rede de televisão do Reino Unido. Está neste momento a criar novas séries para canais de televisão britânicos e americanos.
Os três primeiros livros do autor, Um Dó, Li, Tá, À Morte Ninguém Escapa e Casa de Bonecas, foram também publicados pela Topseller. Traduzidos para várias línguas, resultaram em êxitos de vendas e têm recebido críticas excelentes de todos os meios de comunicação social internacionais.

segunda-feira, 7 de março de 2016

A Rapariga Que Roubava Livros


Título original: The Book Thief
Autor: Markus Zusak
Nº de páginas: 468
Editora: Editorial Presença
Colecção: Grandes Narrativas

Sinopse
«Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga que Roubava Livros, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler, será com a ajuda do seu pai, um perfeito intérprete de acordeão que passará a saber percorrer o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra.
Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura.»

Opinião
Que as palavras podem ter uma força imensurável e avassaladora, disso não dá dúvida. O seu poder é, no entanto, na maioria das vezes subestimado e deturpado, com consequências nefastas. Aqui temos um exemplo enquadrado num desses momentos da História em que as palavras foram um punho ardente na mancha da sociedade, devastando mais que as armas, acendendo a chama do ódio onde este nem sequer existia. É nessas alturas que também se põe em questão a verdadeira essência das palavras e, como tal, a essência da humanidade. É irónico que seja através da morte que, neste livro, se encontre essa essência intimamente relacionada com a vida. Com este paradoxo, atinge-se uma narrativa tão imprevista quanto fascinante, desvendando sob um olhar claro e inocente a razão de ser ao invés de existir - na qual as palavras são um agente imprescindível quando nascem do local certo e com o propósito certo.

A escolha da morte para narrar esta história foi o aspecto que mais me intrigou desde o início. Dar voz ao que é mudo e encanto ao que é devastador parece incongruente. Na verdade, torna-se uma provocação ao bom senso que, por regra, tende a rejeitar e abafar qualquer aspecto relacionado com a morte. Contudo, depressa se torna claro que a escolha é adequada. Quando a própria morte nem entende o seu papel neste mundo, quando a morte tem mais vida que a própria vida, existe um erro massivo no comportamento humano. Com um tom poético e suave, a morte cria uma empatia com o leitor e fá-lo viajar entre a beleza de partir e a angústia de ficar num mundo governado por mentes negras. Mas a morte também nos apresenta uma história de beleza no caos da Alemanha nazi. É a história de alguém que encontrou na sua vida as palavras e, por sua vez, fez das palavras a sua própria vida. É a história de uma menina e da relação que constrói com o mundo à sua volta num relato de ousadia e compaixão que toca até ao último suspiro.

Liesel é, depois da morte omnipresente, o centro da narrativa. Se a noção da morte carrega consigo peso, a presença de Liesel carrega o oposto. Leveza, luz e inconsciência. Na abertura de um cenário desprovido de beleza humana, Liesel é um ponto de esperança, uma força inesperada e inesquecível. Com Liesel, o leitor depreende-se com a magnificência da vida, da integridade e importância das coisas simples, mas fundamentais ao comum dos mortais. Esquecemo-nos, entretanto, que é a morte que nos conduz por este caminho infindável de letras que culmina num destino vazio. Enquanto a vitalidade e obstinação de Liesel não vacilam, deparamo-nos com outras personagens igualmente ricas e belas. Rudy, amigo de Liesel, é um sol em dias de tempestade que faz brotar a felicidade e o lado menos sério de Liesel, num elo que se forja pelo inquebrável poder da compaixão expresso não pelas palavras, ironicamente, mas antes pela genuinidade do olhar e das decisões. Porém, a maior cumplicidade está na relação entre Liesel e o seu pai, Hans. Uma família que é imposta pelas circunstâncias políticas e sociais depressa se aproxima daquilo que consta um lar, um sentimento de pertença e de amor. Com a ajuda das palavras, este lar cresce e solidifica-se para formar uma história única, feita de risos, lágrimas, ímpasses imprevistos e música, reunindo com encanto uma colecção de episódios que farão parte de memórias vivas. É, portanto, com este conjunto de personagens tão peculiares e cativantes que o leitor preenche o seu âmago nesta leitura que parece linear, contudo tão impregnada de complexidade.

Com um pano de fundo real já tão explorado na ficção, este livro divergiu dos sentidos que são normalmente atribuídos à temática da Segunda Guerra Mundial. Não é apresentado um relato do ponto de vista das vítimas óbvias nem se estabelece uma obra literalmente bélica. O contexto é, sem dúvida, preponderante para o desenvolvimento da trama e é o que traça o destino das personagens, mas o facto de o foco incidir sobre um conjunto de figuras que se encontram no lado "certo" do jogo da Alemanha nazi torna ainda mais evidente que a subjugação era transversal a todos e o sofrimento que daí advinha igualmente atravessava tanto uns, como outros, de uma forma ou de outra. Em tempos de guerra, é impossível escapar ao frenesim da marcha que prossegue cega e imparável num só trilho, varrendo tudo o que encontra no caminho como uma torrente louca. 

Zusak tem um dom brilhante. A sua escrita é profunda conforme é leve, ao mesmo tempo simples e tocante. Perfumada com o toque da metáfora e de uma breve ironia, atreve-se a procurar a verdade crua com beleza. É, ainda assim, com grande fluidez que a narrativa corre demarcando a sua mensagem no leitor a cada capítulo. A luta do narrador torna-se a nossa luta. A demanda pelo entendimento, pela razão do que acontece e porque acontece invade a nossa mente sem respostas possíveis. De facto, até no cenário mais improvável, Zusak invoca o intangível para corroborar que o pior conspirador da vida como a conhecemos é o próprio humano no seu anseio por algo maior - mas não melhor.

Um livro que fala à alma. Um livro que revela a importância dos livros e do conhecimento, do poder das palavras e do significado que atribuímos às coisas. Um livro sobre a vida no seu esplendor e horror, a inocência e a absoluta consciência. Afinal, como podia a mesma coisa ser tão horrível e tão gloriosa? É simples. É complexo. É assim que nascemos. É assim que morremos. O que verdadeiramente importa está em saber aproveitar o tempo que temos e vivê-lo. Intensamente. A Rapariga Que Roubava Livros conseguiu atingir-me e inspirar-me a descobrir a essência que comanda a vida, através desta magnífica capacidade que só nós, humanos, temos de comunicar com palavras. É fascinante pensar que poderá causar a mesma impressão em tantos outros como eu.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Novidade Bertrand: "Lobo Solitário" de Jodi Picoult



Género: Literatura / Romance
Tradutor: Fernanda Oliveira
N.º de páginas: 408
Data de lançamento: 11 de março de 2016
PVP: € 17,70

Nº1 do New York Times

Sinopse
«Quando um lobo sabe que o seu tempo está a terminar e que já não é útil à alcateia, muitas vezes escolhe afastar-se. Morre assim isolado da sua família, do seu grupo, preservando até ao fim todo o orgulho que lhe é próprio e mantendo-se fiel à sua natureza. Luke Warren passou a vida inteira a estudar lobos. Chegou inclusivamente a viver com lobos durante longos períodos. Em muitos sentidos, Luke compreende melhor as dinâmicas da alcateia do que da sua própria família. A mulher, Georgie, desistiu finalmente da solidão em que vivia e deixou-o. O filho, Edward, de vinte e quatro anos, fugiu há seis, deixando para trás uma relação destruída com o pai. Recebe então um telefonema alarmante: Luke ficou gravemente ferido num acidente de automóvel com Cara, a sua irmã mais nova. De repente, tudo muda: Edward tem de regressar a casa e enfrentar o pai que deixou aos dezoito anos. Ele e Cara têm de decidir juntos o destino deste. Não há respostas fáceis, e as perguntas são muitas: que segredos esconderam Edward e Cara um do outro? Haverá razões ocultas para deixarem o pai morrer… ou viver? Qual seria a vontade de Luke? Como podem os filhos tomar uma decisão destas num contexto de culpa e sofrimento? E, sobretudo, terão esquecido aquilo que todo e qualquer lobo sabe e nunca esquece: cada membro da alcateia precisa dos outros e, às vezes, a sobrevivência implica sacrifício. Lobo Solitário descreve de forma brilhante a dinâmica familiar: o amor, a proteção, a força que podem dar, mas também o preço a pagar por eles.»

A crítica
«Ficção literária de qualidade superior com uma história muito humana e cativante.» - Mail on Sunday

«Há muitos aspirantes ao seu trono, mas não existe ninguém na área da ficção comercial que faça virar as páginas de maneira mais eficaz do que Jodi Picoult.» - USA Today

A autora
Jodi Picoult nasceu e cresceu em Long Island. Estudou Inglês e Escrita Criativa na Universidade de Princeton e publicou dois contos na revista Seventeen enquanto ainda era estudante. O seu espírito realista e a necessidade de pagar a renda levaram a autora a ter uma série de empregos diferentes depois de se formar: trabalhou numa corretora e numa editora, foi copywriter numa agência de publicidade e professora de inglês. É uma das autoras mais populares da atualidade. Em 2003, foi galardoada com o New England Bookseller Award for Fiction.